Já o Iodo tinha considerável fama, e fomos desafiados para fazer a primeira parte do concerto do Iggy Pop, no Pavilhão Dramático de Cascais. Foi delírio geral naquela sala de ensaios. Pessoalmente, eu, cuja estreia naquela catedral do rock remontava a 1975 com o inesquecível concerto dos Genesis, imaginei-nos lá de cima do imenso palco, a pegarmos naqueles milhares de fans a cantar em uníssono o Malta à Porta. A proposta não era aliciante, iríamos por nossa conta sem qualquer contributo de cachet, dado que, dizia o promotor, aquilo seria uma publicidade ímpar para a banda.
Preparou-se o alinhamento de uma rigorosa maia-hora, nem mais um minuto. Encores não haveriam. Os ingleses impunham as regras. Teríamos de estar no Pavilhão, depois do almoço, e esperar que depois do sound-check da banda do Iggy, fosse colocado o nosso modesto back-line em palco e aí, nos seria concedido fazer o nosso "som" com a ajuda britânica, dado que sendo o PA deles, o nosso técnico de som, o Lourinho, quanto muito teria direito a estar perto da mesa de som.
Creio que, fosse pelo nervoso, ou por medo de não respondermos à chama da, nem comemos nada. Esperava-se primeiro paciente, depois impacientemente, que alguém viesse ter com a malta à Ford Transit do Cabral, e dissesse amistosamente, let's go, folks. E passou a tarde, e o entardecer, e passou gente, entrando e saindo. Do Iggy nem vê-lo, o som deles demorou a fazer, a banda não tinha pressa. Faltava meia hora para abrirem as portas ao público, quando nos deram à laia de favor, a permissão para colocarmos o nosso equipamento entre um mar de colunas, cabos e racks. Fazer som? Nem pensar, as portas iam abrir. E monição? Ao menos... A malta vai corrigindo quando vocês começarem a tocar, foi a resposta.
E tocamos. Mal. Pessimamente. Ninguém se conseguia ouvir. Tão pouco ouvir os outros. O alinhamento perdera-se. O público não era o nosso. Era do Iggy. Eram na maioria punks, os da frente, ainda encarei alguns, nas raras vezes que olhei em frente. Mandavam-nos moedas de tostão. Não mandavam, atiravam. O punks não nos queriam. Nós também não queríamos estar ali. O Madeira tem um rasgo de perspicácia e manda tocar o Malta à Porta, era mais o sinal de fuga, do que o de tocar o hit da banda, dado que era a última canção do alinhamento. O resultado foi o mesmo, mais moedas. O final da canção foi um abrir de porta para a liberdade: pudemos sair daquela arena, dando lugar aos roadies, também eles envergonhados, e danados para sair dali para fora.
De rescaldo fica-me o início do concerto do Iggy, que a meio do 1º tema, bêbado e pedrado que nem um cacho, cai de costas por cima da bateria, provocando um caos no palco e feed-backs monstruosos. Parou o concerto mas a malta não reclamou, nem mandou moedas. Afinal era o Iggy.
Fica-me também de rescaldo, a visão, partilhado por muitos de nós, de uma gaja, com uma saia até aos pés, mas aberta até ao umbigo, e da nossa satisfação ao ver a saia abrir, na dança frenética, dado que roupa por baixo da saia, não havia.
Ficou de rescaldo ao Iodo, a lição: nunca mais tocar de borla, porque aquela brincadeira ainda nos ficou em 15 contos. Bem, de facto, ainda tocamos mais uma vez de borla, na Festa do Avante. Mas isso é outra história.

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